Corticosteroides para a síndrome de Guillain-Barré

Pergunta da revisão

Os corticosteroides aceleram a recuperação da capacidade motora dos pacientes acometidos pela síndrome de Guillain-Barré quando comparados a placebo ou apenas a tratamento de apoio?

Introdução

A síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma forma rara de paralisia geralmente causada quando o sistema imune da pessoa ataca seus próprios nervos, deixando-os inflamados. Em 25% dos casos, a pessoa afetada precisará de ventilação artificial (uso de aparelhos para poder respirar). Cerca de 5% das pessoas com essa doença morrem e aproximadamente 10% ficam com sequelas. Como os corticosteroides (como a predinisolona, por exemplo) reduzem a inflamação, eles poderiam reduzir os danos nos nervos.

Características dos estudos

Identificamos oito ensaios clínicos randomizados, totalizando 653 participantes. Apenas seis estudos, com um total de 587 participantes, traziam informações sobre o desfecho primário desta revisão, que era mudança no nível de incapacidade (usando uma escala de sete pontos). Um dos estudos recebeu apoio financeiro da companhia farmacêutica Baxter Bioscience, dois estudos foram patrocinados por agências de pesquisas, um estudo foi patrocinado pelo National Institutes of Health e dois estudos não citaram suas fontes de apoio financeiro.

Principais resultados e qualidade da evidência

De acordo com evidência de qualidade moderada, a combinação dos resultados dos seis estudos que traziam as informações necessárias mostrou que o uso de corticoides não produz uma diferença significativa no grau de mudança da incapacidade após quatro semanas. Também de acordo com evidência de moderada qualidade, o uso de corticoides não produziu uma diferença na porcentagem de participantes que morreram ou ficaram com sequelas após um ano. Porém, nós consideramos que a evidência sobre incapacidade não é confiável porque havia muitas variações entre os estudos. Em quatro estudos envolvendo 120 pacientes, o grupo de pacientes que tomou corticosteroide oral teve significativamente menos melhora após quatro semanas do que o grupo sem corticosteroides. Porém, essa evidência foi classificada como sendo de qualidade muito baixa. Por outro lado, de acordo com evidência de moderada qualidade, houve uma pequena melhora no grau de incapacidade após quatro semanas de corticosteroide intravenoso em dois estudos envolvendo um total de 467 participantes. No entanto, devido a questões estatísticas, existe a possibilidade de ausência desse efeito. O uso de corticosteroides não foi associado a um aumento significativo de danos, exceto pelo surgimento de diabetes que foi significativamente maior no grupo que usou corticosteroides do que no grupo placebo ou tratado com medidas de apoio. Embora o aumento da pressão arterial seja um dos efeitos indesejáveis sabidamente associados ao uso de corticosteroides, o risco de surgir hipertensão arterial foi surpreendentemente menor no grupo tratado com corticosteroides. A ausência de benefício dos corticosteroides na síndrome de Guillain-Barré não é compreendida, mas talvez seja devido ao efeito prejudicial dos corticoides sobre os músculos, que poderia se contrapor ao seu efeito benéfico de redução da inflamação nos nervos.

A revisão está atualizada até janeiro de 2016.

Conclusões dos autores: 

Segundo evidência de moderada qualidade, o uso de corticosteroides em monoterapia não acelera significativamente a recuperação dos pacientes com SGB e não afeta os desfechos em longo prazo. Segundo evidência de qualidade muito baixa, os corticosteroides orais atrasam a melhora dos pacientes. Segundo evidência de alta qualidade, o uso de corticoides aumenta o risco de desenvolver diabetes que necessita ser tratado com insulina e diminui o risco de desenvolver hipertensão arterial.

Leia o resumo na íntegra
Introdução: 

A síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma forma aguda de paralisia causada pela inflamação dos nervos periféricos. Seria esperado que os corticosteroides seriam benéficos para esses casos.

Objetivos: 

Avaliar a capacidade dos corticosteroides acelerar a recuperação e reduzir a morbidade em longo prazo das pessoas acometidas pela SGB.

Estratégia de busca: 

Em 12 de janeiro de 2016, fizemos buscas nas seguintes bases de dados eletrônicas: Cochrane Neuromuscular Specialised Register, Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL), MEDLINE e Embase. Também fizemos buscas em plataformas de registro de ensaios clínicos.

Critérios de seleção: 

Incluímos ensaios clínicos randomizados (ECRs) ou quasi-randomizados que testaram tratamentos com qualquer tipo de corticosteroide ou hormônio adrenocorticotrófico versus placebo ou apenas tratamento de apoio em pacientes com SGB. Nosso desfecho primário foi mudança no nível de incapacidade (usando uma escala de sete pontos) após quatro semanas. Os desfechos secundários foram: o tempo decorrido entre a randomização até a volta da capacidade de andar sem ajuda, o tempo decorrido entre a randomização até a retirada da ventilação (para aqueles que precisaram de ventilação), morte ou incapacidade (não conseguir andar sem ajuda) após 12 meses, recidiva e efeitos adversos.

Coleta dos dados e análises: 

Os revisores utilizaram os métodos padronizados recomendados pela Cochrane.

Principais resultados: 

Nenhum estudo novo foi encontrado nas novas buscas realizadas em junho de 2009, novembro de 2011 e janeiro de 2016. Seis estudos com 587 participantes forneceram dados para o desfecho primário. Não houve diferença significativa no grau de mudança da incapacidade após quatro semanas nos pacientes que receberam corticosteroide comparados àqueles do grupo controle: a diferença média (DM) foi de redução de 0,36 na melhora, intervalo de confiança de 95% (IC): 0,16 a mais até 0,88 a menos (evidência de qualidade moderada). Segundo metanálise com quatro estudos envolvendo 120 participantes, houve menos melhora após quatro semanas no grupo que usou corticosteroide oral do que no grupo sem corticosteroides: DM 0,82 de melhora no grau de incapacidade (95% CI 0,17 a 1,47, evidência de qualidade muito baixa). Segundo dois estudos envolvendo um total de 467 participantes, não houve diferença significativa na melhora do grau de incapacidade após quatro semanas de corticosteroide intravenoso (DM 0,17; IC 95% -0,06 a 0,39). Existe evidência de moderada qualidade apontando que não há diferença significativa na melhora de um ou mais pontos na escala após quatro semanas de tratamento (risco relativo-RR: 1,08, IC 95% 0,93 a 1,24) ou no risco de morte ou incapacidade depois de um ano (RR 1.51, IC 95% 0,91 a 2,5) entre os grupos tratados com corticosteroide e controle. Existe evidência de alta qualidade apontando maior ocorrência de diabetes (RR 2,21, IC 95% 1,19 a 4.12) e menor ocorrência de hipertensão (RR 0,15, IC 95% 0,05 a 0,41) nos grupos tratados com corticosteroides.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Carolina de Oliveira Cruz) – Atualizada por Andréa Castro Porto Mazzucca. Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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